Como as enchentes no RS atingem a economia brasileira

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Como as enchentes no RS atingem a economia brasileira
Imagem – EBC/Agência Brasil

O nível de estrago das enchentes que atingiram o estado do Rio Grande Sul ainda é difícil de mensurar. No entanto, enquanto a água começa a baixar lentamente, muitos analistas têm se voltado a avaliar o impacto desse desastre de enormes proporções sobre a economia brasileira.

Afinal, não são apenas os números de vítimas e de afetados pelo desastre ambiental que sobem. Também começam a aparecer os efeitos econômicos dos estragos causados.

É importante lembrar que o Rio Grande do Sul é forte no setor agropecuário. Seus principais produtos são arroz, soja, trigo e milho. Também se destacam as carnes bovinas, suínas e de frango.

RS tem participação relevante na economia brasileira


Segundo dados da Defesa Civil desta segunda-feira (20), ainda há 157 mortes e 88 pessoas desaparecidas. Além disso, dos 497 municípios do estado, 463 foram afetados pelas cheias. São mais de 2 milhões de pessoas afetadas, sendo que 76.188 estão em abrigos e há 581.633 desalojados.

Atualmente, os esforços ainda estão concentrados em salvar vidas e ajudar os milhares de desabrigados. Aliás, a ajuda às vítimas das enchentes deve seguir por muito tempo. Afinal, segundo dados do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (IPH), devido às condições meteorológicas, a cheia do Guaíba deve se estender até o fim de maio.

Além disso, mesmo depois que as águas começarem a baixar, ainda será preciso todo uma nova operação para a recuperação das áreas atingidas. E isso certamente levará muito tempo. No entanto, não é apenas na questão humanitária e social que os números assustam.

Afinal, mesmo que ainda seja de forma pouco quantificada, os impactos do desastre ambiental na economia brasileira já começam a aparecer. Isso não apenas para o RS, mas também para o país.

Segundo dados de 2023, o estado é responsável por quase 6% do PIB nacional. Além disso, é responsável por quase 24% do PIB do agro brasileiro.

Antes dos acontecimentos das últimas semanas, as perspectivas para o crescimento do setor no estado eram boas. Afinal, o IBGE apresentava perspectivas de alta de 50% em comparação a 2023 na produção de cereais, leguminosas e oleaginosas.

Estado produz 70% do arroz no país


O Rio Grande do Sul é o maior produtor nacional de arroz, com cerca de 70% da produção do país. Além disso, é importante na produção de outros grãos, como soja e milho, assim como de laticínios e carnes. No entanto, as enchentes e deslizamentos bloquearam as principais vias de escoamento desses produtos. Portanto, se ficar mais difícil para esses produtos chegarem ao resto do país, os preços podem subir.

Aliás, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP informou que as negociações de sacas de arroz travaram nos últimos dias. Segundo nota do instituto, devido à crise no RS:

“A liquidez no mercado de arroz em casca foi praticamente nula na última semana. Ainda assim, os preços do cereal se mantiveram firmes, sustentados pela demanda de outros estados, embora sem sucesso nas efetivações.”

Por fim, segundo dados da consultoria Datagro, a estimativa é de que o desastre gere entre 10% e 11% de perdas na produção do arroz do estado. Portanto, o prejuízo aos agricultores seria da ordem de R$ 68 milhões.

Aliás, antes das chuvas que devastaram o estado, a projeção era de uma colheita de 7,5 milhões de toneladas de arroz. No entanto, agora, a previsão é de que a safra seja de no máximo 6,8 milhões. Além disso, dos mais de 150 mil hectares que não passaram pela colheita do grão, 30% estão em regiões afetadas pelas cheias.

Outras culturas também serão afetadas


A produção de soja e milho também deve ser afetada pelos estragos das cheias. Segundo os dados da Datagro, a perda na safra de soja do RS deve ficar entre 3% e 6%, o que corresponde a um prejuízo de R$ 125 milhões a R$ 155 milhões.

O estado representa 14,8% da produção nacional de soja prevista para este ano. Então, com a súbita queda na produção da commodity, pode ocorrer algum impacto nas cotações internacionais e domésticas. Por outro lado, poderá haver uma perda entre 2% e 4% na produção de milho, com prejuízos na casa dos R$ 7 milhões a R$ 12 milhões. No entanto, neste caso, o impacto deve ser apenas nos preços locais. Afinal, o corte não seria suficiente para alterar os preços do mercado internacional.

Além disso, deve haver algum impacto sobre as proteínas. Afinal, as perdas diretas de rebanhos podem superar o valor de R$ 100 milhões. Além disso, a pressão nos preços da soja e do milho também pode afetar o preço dessas commodities, pois esses grãos servem de ração para os animais.

Diante do cenário apresentado, a consultoria LCA estima que o grupo Alimentação no Domicílio do IPCA deve subir de +3,9% para +4,5%. Por isso, o presidente Lula defendeu, no último dia 7, a medida de importar arroz e feijão para equilibrar os preços:

“Agora, com a chuva, acho que nós atrasamos de vez a colheita do Rio Grande do Sul. Se for o caso, para equilibrar a produção, vamos ter que importar arroz, vamos ter que importar feijão. Para que a gente coloque na mesa do povo brasileiro um preço compatível com aquilo que ele ganha.”

Estado tem 6,1% do PIB industrial do Brasil


Não serão apenas as perdas do setor agropecuário que impactarão na economia brasileira. Segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS-RS), problemas logísticos afetarão todas as cadeias econômicas locais. Afinal, as cheias também atingiram estradas, pontes, aeroportos e portos.

Os municípios afetados representam 80,3% do valor acrescido bruto (VAB) do Rio Grande do Sul. Também correspondem a 78,2% do VAB industrial e 83,3% da arrecadação de ICMS com atividades industriais.

Além disso, a FIERGS aponta que a indústria do RS corresponde a 6,1% do PIB industrial brasileiro, o equivalente a R$ 121,1 bilhões. Também corresponde a 8,9% dos estabelecimentos (51,2 mil indústrias) e 7,7% dos empregos formais, ou seja, 861,9 mil trabalhadores.

O Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco publicou um relatório que também destaca a importância dos setores agrícola e industrial. O RS corresponde a aproximadamente 12,6% do PIB agrícola e a 8,3% da indústria de transformação do país. Portanto, segundo o relatório, “o potencial impacto sobre o PIB brasileiro é da ordem de 0,2 a 0,3 ponto porcentual”.

Impacto na inflação tende a ser temporário


Além disso, o impacto na inflação ainda é incerto. Afinal, o desabastecimento de produtos na região tende a causar choques nos preços locais, mas não é possível saber como isso afetará os indicadores do IBGE. No entanto, o Bradesco destaca que Porto Alegre tem peso de 8,6% no IPCA nacional.

Segundo o Departamento de Pesquisas do Bradesco, se a cidade sofrer uma inflação significativa, mas temporária, em alimentos e combustíveis, o impacto na cidade pode chegar a 0,7 p.p. Nesse caso, o impacto no IPCA nacional seria da ordem de 0,06 p.p. No entanto, isso seria reversível nos meses seguintes.

Aliás, o relatório também considera que a atividade econômica sofrerá o impacto mais forte no mês de maio, com retomada em junho. No entanto, isso depende dos danos e do ritmo de reconstrução das cidades e da infraestrutura estadual atingidas.

Santander prevê impacto no crescimento da economia


O banco Santander também apresentou um relatório com estimativas para os impactos econômicos do desastre no RS. Segundo o banco espanhol, a economia brasileira pode ter um crescimento de até 0,3 ponto percentual a menos do que era esperado.

O relatório apresentou três cenários possíveis, com uma desaceleração da indústria gaúcha de 10%, outro de 15% e um de 20%. Portanto, para cada panorama, o crescimento do PIB brasileiro pode ser impactado negativamente em 0,15 p.p., 0,22 p.p. ou 0,3 p.p., respectivamente.

Também esse relatório destaca que os danos ao setor da indústria podem ser os mais significativos. Afinal, as destruições de imóveis e maquinários podem levar à queda da produção do RS, como aconteceu em eventos similares usados como parâmetros para o estudo.

Esses eventos comparativos foram as enchentes de 2011 em Santa Catarina e o rompimento da barragem de Brumadinho em 2019. Por exemplo, nesses eventos, a desaceleração da indústria foi de 11,3% e 12,7% respectivamente. No entanto, é a extensão da catástrofe climática que torna as perspectivas mais pessimistas agora.

Cerca de 96% dos empregos industriais sofreram os efeitos das cheias. O mesmo se aplica a 97% das exportações da indústria de transformação e a 97% da arrecadação de ICMS com atividades industriais.

Por fim, todos os estudos destacam que os efeitos negativos do desastre podem perdurar por muito tempo. Afinal, o período de reconstrução poderá ser longo diante do tamanho dos estragos com as enchentes. Além disso, os dados por enquanto são apenas aproximações. Afinal, ainda não é possível ter exatidão sobre os estragos enquanto as águas não baixarem.

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