Mercado prevê queda menor da Selic até o final do ano

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Roberto Campos Neto, presidente do BC
Roberto Campos Neto, presidente do BC

O embate entre o Governo Federal e o Banco Central (BC) sobre a Selic ganhou um novo capítulo polêmico na última semana. Afinal, em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira (8/5), o BC reduziu em apenas 0,25 ponto porcentual a taxa básica de juros da economia.

Com isso, a taxa de juros passou de 10,75% para 10,5%, o que representa a 7ª queda seguida. No entanto, o corte de apenas 0,25 desagradou o governo, que esperava uma redução de 0,50 p.p. mais uma vez.

Decisão do Copom sobre taxa de juros não foi unânime


A discordância entre o Governo Federal e o BC ficou clara durante a própria reunião do Copom. Afinal, a decisão tomada em relação à taxa de juros não foi unânime.

Veja a seguir como votaram os nove membros do comitê, que é formado pelo presidente da instituição e oito diretores.Redução de 0,25 (opção vencedora):

  • Roberto Campos Neto (presidente do BC)
  • Carolina de Assis Barros
  • Diogo Abry Guillen
  • Otávio Ribeiro Damaso
  • Renato Dias de Brito Gomes

Redução de 0,5 (opção derrotada):

  • Ailton de Aquino Santos
  • Gabriel Galípolo
  • Paulo Picchetti
  • Rodrigo Alves Teixeira

Um detalhe que chamou a atenção foi o fato de todos os diretores indicados pelo presidente Lula terem votado em uma redução de 0,5 ponto porcentual. Uma redução representaria a continuidade do ritmo de cortes na taxa de juros. Afinal, ele havia sido de 0,5 p.p. em todas as seis reuniões anteriores do comitê.

Essa redução gradual ocorreu após a Selic ter alcançado 13,75% e permanecido nesse patamar entre agosto de 2022 e agosto de 2023.

As razões por trás do corte menor na Selic


Em seu comunicado sobre a decisão, o Copom citou dois fatores principais para o corte menor na taxa de juros, que visa apertar o controle da inflação. Uma possível alta na inflação poderia ocorrer pela pressão internacional nos preços (fator externo) e pela inflação medida no setor de serviços (fator interno).

Em relação à pressão externa, o comitê destacou o cenário global incerto. Por exemplo, há uma incerteza grande em relação a uma possível flexibilização da política monetária nos Estados Unidos.

Além disso, a inflação tem caído com bastante lentidão em muitos dos principais países, o que reforça o pessimismo com a retomada da economia global. Portanto, segundo a nota do Copom:

“Os bancos centrais das principais economias permanecem determinados em promover a convergência das taxas de inflação para suas metas em um ambiente marcado por pressões nos mercados de trabalho. O Comitê avalia que o cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes.”

Por isso, segundo a tese vencedora na reunião, o melhor é manter uma política contracionista enquanto não houver desinflação e uma ancoragem mais sólida das expectativas.

O que disseram os indicados pelo governo


Já os membros do Copom que defendiam uma queda maior nos juros citaram um possível “custo reputacional” ao reduzir a magnitude do corte. Afinal, na reunião anterior, o Copom havia indicado um novo corte de 0,5 p.p. para este mês. Portanto, segundo a tese vencida na reunião, haveria um impacto negativo em descumprir essa sinalização.

As sinalizações do Copom em relação às suas decisões futuras são comuns. Elas servem justamente para ancorar as expectativas dos agentes. Então, o seu descumprimento poderia gerar uma confiança menor em sinalizações futuras.

Por isso, a ala minoritária defendia mais um corte de 0,5 p.p. acompanhado de uma menção ao compromisso firme do BC com o atingimento da meta de inflação. Ou seja, seria dado apenas um novo sinal aos agentes.

É importante ter em mente que essa tese foi derrotada com um voto decisivo do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Isso acabou reforçando o antagonismo entre ele e o governo federal. Além disso, os demais diretores que formaram a posição majoritária foram indicados ou reconduzidos aos seus cargos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em resposta ao posicionamento da ala minoritária, esse campo ressaltou que a sinalização anterior “sempre foi condicional”. Conforme a nota do Copom:

“Para tais membros, o forward guidance indicado na reunião anterior sempre foi condicional e houve alteração no cenário em relação ao que se esperava. Tais membros ressaltaram que muito mais importante do que o eventual custo reputacional de não seguir um guidance, mesmo que condicional, é o risco de perda de credibilidade sobre o compromisso com o combate à inflação e com a ancoragem das expectativas.”

Mercado prevê corte menor na Selic em 2024


Mesmo antes da reunião, a expectativa no mercado financeiro era de que o BC contrariasse sua sinalização anterior e reduzisse o corte na Selic. Para os agentes, o cenário externo gera desconfiança sobre o comportamento dos preços nos próximos meses. Além disso, persiste a desconfiança em relação à política fiscal do governo federal.

É importante levar em conta que a reunião do Copom, teoricamente, não avaliou o possível impacto das cheias no Rio Grande do Sul sobre a economia brasileira. Aliás, há apenas uma menção à tragédia no documento:

“A tragédia no Rio Grande do Sul, além dos seus impactos humanitários, também terá desdobramentos econômicos e o Comitê seguirá acompanhando.”

Relatórios recentes de bancos como o Itaú, XP, BTG Pactual, Bank of America (BofA) e Goldman Sachs apostam em uma taxa de juros a 10,50% ao fim de 2024. Ou seja, abaixo do que era apontado há algumas semanas.

Além disso, o Boletim Focus mais recente prevê uma alta da inflação em 2025. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficaria em 3,64%. Portanto, acima da meta de 3%, mas dentro do intervalo aceitável de 1,5% a 4,5%.

Desconfiança em relação ao próximo presidente do BC


O resultado da reunião do Copom acabou não sendo uma grande surpresa no que diz respeito à redução menor da Selic. No entanto, teve outro efeito importante. A divergência no comitê, marcada pela oposição de todos os novos integrantes do Banco Central, foi vista pelo mercado financeiro com alguma preocupação.

Afinal, seria um indicativo de que a entidade pode adotar uma postura mais flexível na luta contra a inflação ao final do mandato de Campos Neto, em 31 de dezembro. Por isso, havia a expectativa de que a publicação da ata do comitê demonstrasse que a decisão adotada foi baseada em critérios técnicos, não políticos.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, comentou que a ata esclareceu as dúvidas do mercado decorrentes do desacordo no Copom:

“Tinha mais rumor do que verdade. Está tudo tranquilo.”

Além disso, Haddad enfatizou o aspecto técnico da ata:

“Ela foi muito apropriada e alinhada com minhas expectativas. Percebi que havia duas visões técnicas respeitáveis, e a ata deixou claro que os argumentos de ambos os lados eram relevantes e justificáveis.”

O impacto da Selic na economia


Quando os juros são reduzidos, o crédito se torna mais acessível, estimulando o consumo. A diminuição da taxa Selic reflete diretamente nas taxas cobradas por bancos e estabelecimentos comerciais, contribuindo para o aumento do consumo familiar.

No entanto, esse efeito não é instantâneo, e seus impactos mais significativos são percebidos gradualmente pela população. A redução da Selic, conhecida como taxa básica de juros, proporciona um alívio no orçamento das famílias. Pois ela serve de referência para as taxas de juros de empréstimos e financiamentos. Portanto, isso significa que financiar bens como carros ou imóveis se torna menos oneroso.

A redução dos juros também pode incentivar a criação de empregos. Afinal, juros elevados aumentam os custos operacionais das empresas, desencorajando investimentos e contratações. Com a queda da Selic, os empresários se sentem encorajados a assumir riscos para expandir suas atividades. Então, tendem a gerar mais postos de trabalho.

Por fim, com a continuidade da redução dos juros, investimentos em renda fixa, como títulos do Tesouro, CDBs e LCIs, tornam-se menos atraentes. Isso pode levar os investidores a buscar opções mais voláteis, como ações, criptomoedas e outros ativos de renda variável.

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