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Real Digital Brasileiro começa a ser testado

Primeiros protótipos da moeda digital brasileira serão emitidos essa semana.

O futuro do real está cada vez mais próximo, com a criação de um dinheiro digital. Os primeiros protótipos começaram a ser emitidos na última quinta-feira, 20. A moeda brasileira ganha um formato virtual, que promete muitas mudanças na forma de lidar com o dinheiro no dia a dia. Desde facilitar pagamentos numa viagem ao exterior, até no combate à lavagem de dinheiro. 

O dinheiro virtual não é uma novidade, mas neste caso, trata-se de uma moeda regulamentada pelo Banco Central do Brasil. Isso não significa que seja necessário ter uma conta bancária para ter o Real Digital. Basta comprar uma carteira virtual de agentes autorizados. 

Desde 2020, o Banco Central estuda o melhor formato para o futuro do real. O Lift (Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas), desafiou empresas a elaborarem projetos e protótipos de novas soluções financeiras. E uma das provocações lançadas foi para o desenvolvimento do Real Digital Brasileiro, seguindo o sistema de CBDC (Central Bank Digital Currency ou Moeda Digital do Banco Central), que é estudada por outros países, como Estados Unidos, Reino Unido e Venezuela, e já é uma realidade na China, com o iuan digital. 

Como vai funcionar o Real digital?

O Lift selecionou nove projetos para a criação do Real Digital, elaborados por bancos (Itaú e Santander), bandeira de cartão de crédito (Visa), pelo Mercado Bitcoin, FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos e por empresas de soluções financeiras (AAVE, VERT e Gieseck+Devrient).

A moeda digital brasileira vai funcionar como uma criptomoeda estável (stablecoin). É uma moeda digital criptografada como o Bitcoin, porém, será uma extensão do real usado atualmente no Brasil. Isso significa que haverá a garantia e a regulamentação do Banco Central. Para adquirir o Real Digital é preciso comprar uma carteira digital, à venda nos bancos e instituições de pagamento, mas não é necessário ter conta no banco. 

Para a revista Exame, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que a ideia é extrair valor de um ativo de forma digital, seja ele arte, foto, propriedades, ideias e até dinheiro.

“O objetivo é conectar tudo em algum formato de carteira digital: pagamentos, open finance, monetização de dados e ter uma trilha comum com dinheiro programável com protocolos abertos. Então, vamos para um novo sistema interoperável que irá permitir pagamentos, depósitos tokenizados, open finance, monetização de dados, stablecoins… Uma trilha única”, afirmou Campos Neto.

Como usar o Real Digital?

O futuro do real não prevê o uso de cédulas, mesmo que elas ainda continuem a existir. A pessoa terá a opção de usar dinheiro de papel ou digital. No caso da moeda virtual, basta utilizar a carteira digital no celular. Será possível converter o Real Digital para qualquer forma de pagamento usada hoje em dia, como depósito bancário convencional ou para real físico.

Algumas funcionalidades do Real Digital Brasileiro:

Contratos inteligentes (smart contracts): programas armazenados numa blockchain (sistema de rastreamento usado nas transações das moedas digitais), que são executados quando as condições predeterminadas são atendidas, sem envolver intermediários. Exemplo: compra e venda de imóvel, com transferência de titularidade e pagamento feitos simultaneamente.

Pagamentos internacionais: em vez de se preocupar em comprar a moeda do país de destino, o viajante poderá usar sua carteira digital no celular e até sacar dinheiro na moeda estrangeira fora do Brasil.

Internet das coisas (IoT): com a moeda digital, os objetos conectados à internet ganhariam novas utilidades, além de permitir o monitoramento de suas funções via conexões sem fio.

Operações de varejo e atacado: o Real Digital vai operar integrado com sistemas de pagamentos já usados pelo mercado.

Salário por streaming”: em vez do tradicional pagamento mensal, será possível receber o salário, automaticamente, a cada segundo, proporcional ao pagamento mensal.

Moeda digital brasileira será lançada em 2023

Os primeiros protótipos do Real Digital Brasileiro serão lançados nessa semana, foi o que divulgou em sua coluna na Folha de São Paulo o advogado especializado em novas tecnologias e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, Ronaldo Lemos. Na semana passada, ele encontrou-se na Itália com dois participantes do desafio Lift, durante a conferência Meridian, que abordou as aplicações práticas da tecnologia de blockchain e criptomoedas.

“Um deles me confidenciou que os primeiros reais digitais com que estão trabalhando serão criados nesta quinta-feira. Esse é um momento importante. O Brasil dá a largada para ter sua moeda em formato digital, ainda que de forma experimental, e com a supervisão próxima do Banco Central”, disse Lemos.

O futuro do Real prevê ainda o combate à lavagem de dinheiro e à sonegação de impostos porque permite o monitoramento do fluxo financeiro com mais detalhes e alcance do que como é feito atualmente. Essa possibilidade gerou críticas quanto à invasão de privacidade dos usuários, mas o BC garante que a legislação será seguida, como a Lei do Sigilo Bancário e a Lei Geral de Proteção de Dados.

Em setembro, o presidente do Banco Central já havia divulgado em entrevista à revista Exame que os testes tinham começado entre as empresas que tiveram seus projetos selecionados para o desenvolvimento do Real Digital. Ele esclareceu que os testes envolvem várias soluções como DeFi (Finanças Descentralizadas), DvP (Títulos tokenizados), criptoativos, IoT (Internet das Coisas), dinheiro programável (financiamento para atividade rural). Campos Neto também informou que o Real Digital Brasileiro seria lançado em 2023.

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