Como Ordinals pode mudar a forma como vemos os NFTs?

Gabriel Gomes
| 5 min read

ordinals

O Protocolo Ordinals teve seu lançamento em janeiro de 2023. Ele abriu o ecossistema Bitcoin à loucura dos NFTs. Fez isso ao permitir aos usuários inscrever dados – imagens, arte, vídeos e muito mais – em denominações Bitcoin individuais conhecidas como satoshis.

A ideia de trazer NFTs para a rede Bitcoin pode ter parecido trivial para alguns. Outros, porém, reconheceram a importância e anunciaram os Ordinals como um “tiro no braço” para a blockchain da Proof-of-Work.

Por mais forte que fosse, a narrativa do ouro digital seria agora apoiada por outro caso de utilização convincente. Ademais, à medida que o bitcoin se tornasse mais do que uma moeda digital deflacionária: agora poderia funcionar como uma peça de arte digital ou uma peça musical não fungível.

Curiosamente, os Ordinals podem ser aproveitados para propósitos além de inscrever uma mensagem em um satoshi. Só para exemplificar, uma iniciativa recente da grande detentora de BTC MicroStrategy, vê o protocolo utilizado para permitir a criação de identificadores descentralizados (DIDs) infalíveis e confiáveis.

Ordinals: das inscrições ao infinito

A chegada dos Ordinals permitiu efetivamente a cunhagem de NFTs diretamente no blockchain Bitcoin pela primeira vez. A ideia está atribuída ao ex-colaborador do Bitcoin Core e criador do Ordinals, Casey Rodarmor.

Os Ordinals representam um sistema em que números de série são atribuídos aos satoshis. Dessa maneira, conferem um identificador exclusivo a cada um, o qual pode ser rastreado nas transações e permitindo que os usuários anexem dados suplementares a eles (inscrições).

Poucos meses após a chegada dos Ordinals, um desenvolvedor anônimo foi pioneiro no BRC-20. Este é um padrão de token que ampliou a funcionalidade do Bitcoin, apoiando a cunhagem e transferência de tokens fungíveis por meio de um protocolo.

O padrão experimental – que utiliza inscrições Ordinals para incorporar dados de token diretamente no blockchain – fez uma revelação: menos de um ano após o lançamento dos Ordinals, a memecoin BRC-20 ORDI ultrapassou US$ 1 bilhão em capitalização de mercado.

Quanto aos Ordinals, cerca de 66,5 milhões de inscrições foram feitas em satoshis de acordo com a Dune Analytics. Dado que existem 100 milhões de satoshis por bitcoin, ainda temos um longo caminho a percorrer antes que as inscrições correspondam a uma moeda inteira.

O valor em dólares gerado pelas taxas do Ordinal, entretanto, ultrapassa US$ 417 milhões. Em menos de 18 meses desde o lançamento oficial do Ordinals, houve muitos marcos significativos, desde a estreia da primeira coleção Ordinals (Bitcoin Shrooms) até a chegada do primeiro serviço de inscrição (OrdinalsBot) e o já mencionado sucesso do ORDI.

Entre os maiores marcos estava a abertura de um mercado Bitcoin NFT no Magic Eden. E este preparou o cenário para a negociação frenética de BRC-20 NFTs baseados em Bitcoin, semelhante ao boom de NFTs Ethereum de 2021.

Como os Ordinals do Bitcoin se comparam aos NFTs do Ethereum?

Então, como os NFTs baseados em Bitcoin concebidos se comparam aos equivalentes mais estabelecidos na rede Ethereum? A principal diferença digna de nota é que a criação de NFTs Ethereum se faz usando contratos inteligentes baseados em padrões como ERC-721 e ERC-1155.

Na verdade, isso significa que os dados NFT podem ser armazenados em diferentes camadas do blockchain Ethereum ou mesmo no Sistema de Arquivos InterPlanetary, com os NFTs se beneficiando de maior funcionalidade. Por outro lado, os NFTs de bitcoin ficam registrados diretamente na rede blockchain de mesmo nome.

Outro ponto de divergência diz respeito às taxas de transação

Como os Ordinals ficam armazenados na rede, as taxas de transação acabam sendo mais altas. Os NFTs Ethereum, por outro lado, podem ficar armazenados fora da cadeia e, portanto, se beneficiarem de taxas mais baixas.

Como os royalties NFT funcionam por meio de contratos inteligentes e o Bitcoin não é uma rede de contratos inteligentes, os Ordinals não dão aos criadores o direito à receita de royalties na revenda de seu trabalho.

Dito isto, existem iniciativas que buscam trazer capacidade de contrato inteligente para o Bitcoin, sendo os Convenants um exemplo disso.

Embora criticados por alguns por trazer a degeneração do DeFi para o Bitcoin (sem mencionar o aumento das taxas de rede), Ordinals e BRC-20 foram elogiados por pessoas como Vitalik Buterin. O fundador da rede Ethereum saudou o “retorno orgânico da cultura de construtor” à rede PoW no último verão.

É uma cultura que colidiu com a do Ethereum na forma do padrão de token BRC-721. Isso que permite a ligação de NFTs ERC-721 do Ethereum ao Bitcoin.

Pode-se argumentar que os Ordinals aprenderam lições com o boom de NFTs anterior. Portanto, como as inscrições não podem ser modificadas após a criação e os NFTs Bitcoin são inerentemente mais escassos. Com isso, eles acabam sendo melhores em preservar seu valor. O tempo dirá…

O florescimento das camadas 2 do Bitcoin

O sucesso dos Ordinals está ligado ao surgimento dos Bitcoin Layer-2s, protocolos secundários construídos sobre o Bitcoin e destinados a enfrentar os desafios de escalabilidade da rede e, ao mesmo tempo, aprimorar sua utilidade.

De certa forma, esta evolução da rede Bitcoin segue uma tendência semelhante à do Ethereum, que gerou a sua própria multiplicidade de Layer-2s durante o último grande boom DeFi.

Uma dessas camadas é a Merlin Chain, que aproveita a tecnologia ZK-Rollup para compactar dados de transações e, portanto, permitir transações mais rápidas e baratas.

Outras características distintivas do L2 incluem sua rede oracle descentralizada, módulos BTC à prova de fraude na cadeia e compatibilidade com a Máquina Virtual Ethereum.

Apesar de lançada apenas no início deste ano, a Merlin se tornou de longe a maior sidechain de Bitcoin. Ela alcançou US$ 1 bilhão + TVL, dessa forma, excedeu amplamente os de Rootstock, Stacks e outros L2s de Bitcoin.

A equipe por trás da Merlin Chain desenvolveu anteriormente o BRC-420, um padrão que transforma inscrições Ordinals em ativos que podem interagir entre si – conhecidos como inscrições recursivas.

Notavelmente, o BRC-420 introduz um padrão de royalties, dando aos desenvolvedores o direito a receitas provenientes do uso de suas criações. Ademais, com a equipe comprometida em liberar o potencial dos ativos nativos do Bitcoin a protocolos como Ordinals e produtos associados.

Com o valor de mercado das soluções de camada 2 do Bitcoin agora ultrapassando US$ 4,3 bilhões, menos de 18 meses após o lançamento do Ordinals, Casey Rodarmor tem muito do que se orgulhar. Todavia, o desenvolvedor não se acomodou com o sucesso. Isso porque em abril ele lançou o Runes, um protocolo para tokens fungíveis que alavanca o Bitcoin.

 

Leia mais: