Análise – Principais tendências em criptoativos na pauta de Davos

| 6 min read
Fórum Econômico Mundial - Davos
Crédito: World Economic Forum/Pascal Bitz

Na atmosfera majestosa dos Alpes Suíços, transcorreu recentemente a 54ª edição do Fórum Econômico Mundial. Reunindo líderes globais e autoridades, o evento em Davos costuma discutir os intrincados meandros da economia global. Desta vez, não foi diferente.

Entre os temas candentes que permearam os debates realizados entre 15 e 19 de janeiro, o universo cripto marcou presença mais uma vez. Afinal, foi o foco de diversos painéis.

A crescente relevância dos criptoativos nessas discussões reflete o interesse efervescente sobre o tema no mercado. No entanto, também sublinha a importância estratégica que esses ativos digitais conquistaram no cenário econômico global.

A cada edição do Fórum Econômico Mundial, os criptoativos parecem ser mais bem aceitos. Há poucos anos, as criptomoedas ainda eram criticadas em Davos. Mas isso tem mudado com a adoção cada vez maior dessa tecnologia.

A crescente institucionalização do mercado de criptos e o surgimento de novas formas de tokenização estiveram entre os temas debatidos nesta edição.

A seguir, trazemos uma análise das tendências em criptoativos mais discutidas em Davos e dos desafios que se avizinham.

Criptoativos e RWA – Valor tangível em um mundo digital


Um dos temas discutidos foi o crescimento das chamadas tokens RWA. Em inglês, essa sigla significa Real World Assets. Portanto, são tokens vinculados a ativos do mundo real. Ou seja, algo bem diferente dos criptoativos “clássicos”.

Isso pode parecer antiquado se pensarmos nas modalidades financeiras digitais surgidas nos últimos anos. Afinal, remete ao Padrão Ouro adotado pelo governo norte-americano para garantir a estabilidade do dólar até meados do século 20.

No entanto, a demanda por esses ativos, que têm um pé no antigo e outro no moderno, está cada vez maior. O seu valor de mercado deve chegar a R$ 20 trilhões até o fim de 2030, segundo um relatório divulgado pelo Citibank recentemente. O seu principal apelo, sem dúvida, é a percepção de um referencial claro de valor.

Como foi abordado em Davos, a tangibilidade pode fazer com que esse tipo de ativo se destaque como motor da adoção em massa de criptomoedas nos próximos anos.

Um exemplo popular de RWA é o Propchain (PROPC), que tokeniza investimentos imobiliários (abaixo).Outro token que fez sucesso recentemente é o Pendle (PENDLE), que tokeniza instrumentos de rendimento futuro (abaixo).

Tokenização transforma o real em digital


A tokenização também foi um ponto de destaque nos debates. Esse é um processo que converte direitos sobre ativos reais, como imóveis e obras de arte, em tokens digitais no blockchain. Portanto, esses tokens servem como representações dos valores desses ativos no formato digital. Isso os torna mais acessíveis e fáceis de ser negociados globalmente.

A tokenização, ao simplificar e agilizar transações, promete revolucionar o mercado ao reduzir custos e a burocracia presente em diversas instâncias do mercado. Afinal, ela elimina intermediários e dispensa a regulamentação exagerada em muitos processos.

Commodities, pedras preciosas e outros bens já estão disponíveis para comercialização de maneira transparente via blockchain. No entanto, ninguém é capaz de definir onde está o limite neste caso. O mercado global começa a ajustar-se a essa realidade, gerando uma série de negócios e serviços digitalizados.

O painel “The Tokenization Economy” em Davos reuniu figuras do mercado financeiro tradicional, como Jeremy Allaire (CEO da Circle), e do universo cripto, como Denelle Dixon (CEO da Stellar). Na ocasião, os participantes também abordaram a recente aprovação dos ETFs de Bitcoin nos EUA.

Estreia dos ETFs de Bitcoin e valores em alta


Há bastante tempo, vinha crescendo a expectativa de quando o interesse institucional deixaria o reino da especulação para se tornar uma realidade. Então, em 2024, testemunhamos um marco significativo. Afinal, ocorreu finalmente a estreia dos ETFs de Bitcoin nas bolsas de valores dos EUA.

Movimentando US$ 4,6 bilhões no primeiro dia, esses fundos abriram as portas para investidores alocarem recursos no Bitcoin sem possuir a moeda diretamente.

ETF de Bitcoin - BlackRock

Com a entrada dos fundos de Bitcoin nas bolsas tradicionais, espera-se um aumento significativo da demanda por criptomoedas. Ou seja, o impacto não se daria apenas sobre o BTC. E isso tem uma razão simples.

É que as relações com instituições tradicionais desmistificam a complexidade em torno das criptomoedas. Afinal, passam uma segurança maior para os investidores devido à tradição desses agentes e à certeza de que se trata de um negócio regulamentado.

Para reforçar esse ponto, Davos recebeu um influxo acima do comum de representantes da indústria de criptomoedas. Por exemplo, a sua presença representa uma guinada em relação ao que foi visto em 2022 no mesmo evento. Naquela ocasião, a moral do setor estava baixa devido à crise da FTX.

Inclusive, houve críticas ao Bitcoin durante a realização do Fórum Econômico Mundial naquele ano.No entanto, a visão sobre os criptoativos é bem diferente agora.

Davos reforça institucionalização dos criptoativos


A sensação de quem esteve em Davos é de que os criptoativos já estão, na prática, altamente institucionalizados. Ao longo do evento, esse universo pareceu muito mais integrado com as finanças tradicionais do que alguém esperaria ver há alguns anos.

Na verdade, temas da moda como a inteligência artificial (IA) pareceram mais disruptivos durante os debates realizados em Davos. Por outro lado, tópicos como a tokenização de ativos e o uso de RWA caminham cada vez mais em direção ao mainstream.

É claro que nem tudo são flores e confetes quando o tema é criptoativos entre os executivos das principais instituições financeiras. Por exemplo, em uma entrevista durante o evento, o CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, chamou o Bitcoin de “pet rock” ou “pedra de estimação”. Ou seja, disse que o BTC não vale nada.Dimon é um crítico de longa data da moeda e não parece disposto a mudar de opinião. No entanto, apesar dessa posição forte, o próprio JPMorgan Chase está participando da oferta de ETFs de Bitcoin pela BlackRock. O exemplo abaixo ilustra bem isso.

Isso demonstra o quanto se tornou difícil para a maioria dos agentes ignorar a existência de uma demanda forte e institucionalizada por criptomoedas.

Com o desenvolvimento de novas aplicações para blockchain e o fortalecimento dos smart contracts, a tendência tende a se consolidar. Afinal, as pessoas estão cada vez mais familiarizadas com ativos digitais e com outros produtos baseados nessa tecnologia.

À medida que os governos regulamentam o setor e novos produtos e serviços surgem, consumidores e investidores também sentem mais confiança neles. Então, mesmo que nem todos os negócios sejam bem-sucedidos, a adoção em massa dos ativos digitais parece inevitável no longo prazo.

Leia mais: